
PREFEITURA ANOS 1950 – PRAÇA DR. CARTAXO – ANOS 1949-1950 E ANOS 1997 – 1982

PRAÇA DR. CARTAXO 1993 – 1996 PRAÇA DR. CARTAXO 2024
O presente artigo discute o processo contínuo de destruição e substituição de elementos arquitetônicos e urbanísticos históricos no município de Mauriti, fenômeno aqui denominado como “crimes de palimpsesto”. A expressão remete ao antigo pergaminho raspado para dar lugar a uma nova escrita, metáfora que descreve a forma como sucessivas gestões municipais têm apagado marcos históricos para impor projetos esteticamente duvidosos, culturalmente pobres e urbanisticamente equivocados. Este texto revisita episódios emblemáticos dessa descaracterização, com ênfase na Praça Dr. Cartaxo, símbolo maior das intervenções que rompem com a memória social e com a paisagem urbana tradicional.
1. Introdução
A história arquitetônica dos espaços públicos de Mauriti é marcada por sucessivas intervenções que configuram verdadeiros crimes de palimpsesto. Na Antiguidade, palimpsesto era o pergaminho raspado para que uma nova narrativa fosse escrita sobre a anterior. De modo semelhante, o poder público municipal tem rasurado, ao longo das décadas, o pergaminho urbano da cidade para inscrever, em seu lugar, novas engenharias e novidades arquitetônicas — muitas vezes pobres, esdrúxulas e descomprometidas com o patrimônio cultural.
Na ânsia de produzir “marcas de gestão”, alguns prefeitos destruíram edificações simbólicas, apagaram referências identitárias e substituíram obras de valor histórico por estruturas de pouca expressão, comprometendo a memória coletiva e descaracterizando a paisagem urbana.
2. O ciclo “destrói–constrói” e suas consequências
O processo de substituição sistemática do patrimônio gera a contínua perda dos marcos arquitetônicos de distintas fases da história municipal. Esse ciclo tem apagado pontos de referência, memórias afetivas e elementos simbólicos importantes.
Um exemplo emblemático é o antigo prédio onde funcionou a Prefeitura Municipal até o início dos anos 1970, na atual Rua Tabelião Chagas Sampaio. Edificação de dois pavimentos, abrigava, no andar inferior, a prefeitura; no superior, a Câmara Municipal e, ao fundo, a irradiadora A Voz de Mauriti.
O salão da prefeitura, amplo e iluminado, era ponto de convivência comunitária. Ali se realizavam bailes, festas carnavalescas e eventos sociais que marcaram gerações. Era um espaço vivo, pleno de significado, hoje reduzido apenas à lembrança.
3. A estética Art Déco e o patrimônio que se perdeu
O prédio da prefeitura, datado das décadas de 1940/1950, apresentava características de Art Déco, com colunas verticais alongadas e geometrização das formas. Esse estilo dialogava com uma nova arquitetura que se consolidava no Brasil, presente também na Escola André Cartaxo, no antigo açougue e na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, na Rua Marechal Floriano.
A região era valorizada pela presença das pracinhas Padre Cícero e Oscar Sobral, compondo um conjunto urbanístico harmonioso. A destruição desses elementos rompeu uma lógica estética e histórica essencial para a memória coletiva.

PRÉDIO COM DOIS PAVIMENTOS: PREFEITURA MUNICIPAL- MAURITI 1949-1950
4. A Praça Dr. Cartaxo: um caso exemplar de crimes de palimpsesto
4.1. Origem (1949–1950)
Construída na gestão do prefeito Dr. Fernandes Teles Cartaxo, a Praça Dr. Cartaxo (FOTO II) representava, à época, um marco de urbanidade e convivência.
FOTO II

PRAÇA DR. CARTAXO – GESTÃO DR. FERNANDES TELES CARTAXO 1949-1950
4.2. Primeira destruição
Na gestão do prefeito José Acílio Dantas, a praça original foi demolida para dar lugar a um novo projeto (FOTO III) inspirado na Praça do Ferreira, em Fortaleza — esta, por sua vez, reconstruída durante o regime militar de 1964 com a intenção de controlar e dispersar movimentos estudantis. Em Mauriti, a cópia reproduziu a estética da época sem considerar a identidade local.
FOTO III

PRAÇA DR. CARTAXO – GESTÃO JOSÉ ACÍLIO DANTAS DE MARAIS 1977-1982
4.3. Resgate histórico (1993–1996)
O prefeito Dr. José Marcondes Grangeiro Sampaio, com visão urbanística moderna, promoveu o resgate da Praça Dr. Cartaxo (FOTO IV). Baseou-se no conceito de praça pública como espaço aberto destinado à convivência, ao lazer, à circulação e à expressão comunitária.
FOTO IV

PRAÇA DR. CARTAXO – GESTÃO DR JOSÉ MARCONDES GRANGEIRO SAMPAIO 1993-1996
Instalou bancos de madeira adequados ao clima, definiu áreas de circulação e promoveu transplante de árvores adultas, valorizando a arborização — elemento central para a qualidade ambiental e o conforto térmico.
Assim, restituiu a essência da praça, combinando memória histórica e cortes arquitetônicos contemporâneos.
5. A nova intervenção (2024): o retorno dos crimes de palimpsesto
FOTO V

PRAÇA DR. CARTAXO GESTÃO JOÃO PAULO FURTADO (2024-2028) E O MONUMENTO EM HONAGEM AO VOO DOS MOSQUITOS
5.1. Demolição e descaracterização
Em 2024, o prefeito João Paulo Furtado, movido pela busca de protagonismo, realizou nova raspagem no palimpsesto urbano: destruiu a praça reconstruída por Dr. José Marcondes e ergueu, sobre seus escombros, um modelo neo-urbanístico repleto de penduricalhos e artifícios, negando princípios básicos de funcionalidade, memória e estética.
O espaço público foi ocupado por um monumento sem significado histórico, comparável a um “aster” de gosto duvidoso, acompanhado de uma fonte cuja utilidade se limita a servir de depósito de detritos e criadouro de mosquitos (FOTO V).
5.2. Conforto térmico ignorado
Os bancos instalados foram construídos com materiais inadequados para o clima local, acumulando calor e tornando-se inutilizáveis durante grande parte do dia, especialmente em temperaturas acima de 30 °C — realidade comum na região.
5.3. Uma ironia funcional
FOTO V-A

PRAÇA DR. CARTAXO GESTÃO JOÃO PAULO FURTADO 2022 – 2028 ALBERGUE NOTURNO PARA CÃES
Curiosamente, a nova praça acabou acolhendo um albergue informal para cães (FOTO V-C), que utilizam o monumento como refúgio noturno, aproveitando a brisa — talvez o único acerto involuntário da intervenção
6. Princípios para uma gestão urbana responsável
A experiência recente de Mauriti evidencia a necessidade de princípios básicos para o gestor que pretende intervir na cidade:
- Não destruir o que existe apenas para deixar “marca de gestão”.
- Valorizar, recuperar e ampliar equipamentos públicos, em vez de apagá-los.
- Criar novos espaços em áreas próprias, preservando a história.
- Diferenciar o papel do engenheiro e do arquiteto:
- engenheiros constroem;
- arquitetos projetam e pensam a cidade.
- Incorporar conceitos de urbanismo, memória e paisagem.
- Garantir o direito à cidade, que inclui espaços de convivência, sombra, mobilidade e identidade.
Como afirma a literatura urbanística:
“Além de sua função estética e recreativa, a praça pública cumpre papel essencial na integração social, na qualidade de vida urbana e no exercício pleno do direito à cidade.
7. Considerações finais
Os crimes de palimpsesto cometidos em Mauriti representam mais que simples reformas urbanísticas: são agressões à memória, à identidade e ao patrimônio coletivo. A cada destruição, a cidade perde referências, apaga capítulos de sua história e enfraquece vínculos afetivos.
Preservar é, antes de tudo, respeitar o passado para construir um futuro com sentido. Cidades que destroem seus marcos não apenas perdem beleza — perdem alma.

FRANCISCO CARTAXO MELO
ARTICULISTA DO ESPAÇO CARIRI